Um dos principais objetivos do Museu do RPG é trazer ao hobby um status mais respeitado, do qual é merecedor. Esta revista busca cumprir este objetivo, trazendo o RPG como Cultura. Sobre o tema, entrevistamos Rogerio Saladino, da Jambô, um dos nomes mais importantes do RPG nacional.

Editor da Jambô e co-autor de Tormenta, Rogerio Saladino é nosso convidado especial desta edição. Nesta entrevista, Saladino fala de como era adquirir material de RPG no passado, do RPG como cultura e do futuro do hobby na era digital.

Rogerio Saladino
Rogério Saladino

Cultura RPG: Qual foi o seu primeiro contato com o RPG? E a partir daí, você já imaginava um dia que ia trabalhar com RPG?

Rogerio Saladino: Meu primeiro contato com RPG foi num evento de Star Trek, que um colega da faculdade estava participando da organização. Uma das atividades era uma mesa de RPG onde os jogadores interpretavam os personagens de Star Trek. Eu já tinha visto alguns livros-jogos, mas não uma sessão ao vivo.

Eu fiquei falando com o pessoal que estava fazendo a demonstração, e depois acabei participando de outras sessões de divulgação nos finais de semana seguintes. Depois disso, comecei a jogar praticamente todo final de semana. Nessa época eu nunca imaginei que trabalharia com RPG, eu era apenas um jogador entusiasta.

CRPG: Pergunta básica: Qual é o seu sistema de RPG favorito? E seu cenário favorito?

RS: É sempre difícil dizer qual é o meu sistema favorito, ainda mais que agora eu sou co-autor do Tormenta RPG. Sempre gostei muito do D&D e suas versões (exceto a 4ª edição), gosto muito do sistema D20 e alguns de seus derivados. Gosto muito também do Pathfinder RPG, que continuou muito bem o sistema D20. Meu cenário favorito é Ravenloft, a linha de terror gótico do D&D.

CRPG: Quando você conheceu o RPG em 1991, era fácil ter acesso ao jogo?

RS: Não era muito fácil, não. Eu comecei a jogar num lugar onde havia uma loja que importava livros, de RPG inclusive, então a gente tinha algum acesso, mas os livros eram relativamente caros (pra gente, na época).

A Devir trazia RPGs e traduziu alguns (como o lendário GURPS da capa branca e roxa) e a gente meio que ia atrás desse material. Como fã de AD&D (na época) era ainda mais restrito. Nossa fonte de informação do sistema/cenários era a revista importada Dragon (e a Dungeon), quando chegava na loja. Não tínhamos internet ou tanto acesso a informações na época. A desinformação era meio constante… o bom é que pouco tempo depois a coisa melhorou.

Rogerio Saladino

“Me dá uma sensação de realização indescritível, eu sinto que fiz algo que vai durar, que deixei uma marca.”

CRPG: Quais foram os benefícios do RPG na sua vida?

RS: Fora o fato de eu trabalhar com RPG hoje em dia, ter uma longa carreira escrevendo, editando e atuando na área, o que me dá uma sensação de realização indescritível, eu sinto que fiz algo que vai durar, que deixei uma marca, mesmo que pequena e localizada. Eu ouço muita gente dizendo que escreve porque foi incentivada pelo que eu escrevi, ou por algo que eu falei, então acho que para alguma coisa, eu servi.

Incentivar as pessoas a contar suas histórias, a ler, a buscar leitura, me faz me sentir bem. Eu amo a Fantasia, e saber que eu ajudei esse gênero literário a ficar mais conhecido, num país onde é bem difícil se divulgar a leitura, também me deixa bem feliz.

CRPG: Você considera o RPG como cultura?

RS: Considero sim. O RPG usa elementos de literatura, teatro e improviso, mas essencialmente é uma forma de expressão. Quando lemos um livro de RPG nacional, vemos nele influências da cultura pop do momento que ele foi escrito, as referências a outros livros, filmes, séries, animações e etc. do momento. O autor coloca nele tudo que influenciou ou ainda influencia.

Uma leitura com atenção de livros de RPG, de como se joga esse ou aquele sistema ou cenário, quais jogos fazem mais sucesso num determinado momento, ou como eles param de ser jogados, tudo isso é um reflexo do momento cultural da época. Tudo isso porque, essencialmente, o RPG faz parte da cultura.

CRPG: Muito se fala do aspecto didático do RPG, entretanto pouco é abordado sobre sua cultura. As revistas nas quais você trabalhou, já pensaram no aspecto cultural do jogo?

RS: Muita gente vê o pessoal do RPG como vindo de outras culturas, outras tribos. Os RPGistas eram chamado de nerds (quando o termo não era exatamente legal), o RPG era mais uma coisa colocada no meio nerd. A pessoa para ser nerd (arquetipicamente falando) tinha que ler quadrinhos, gostar de sci-fi, jogar videogame e RPG, e cada um desses nichos culturais não eram vistos de forma exatamente separada. Uma pessoa que gostasse de um TINHA que gostar dos outros.

Nas revistas que eu trabalhei, muitas vezes a gente tinha uma visão do RPGista como um nicho cultural, que fazia parte da cultura nerd, mas tinha suas características diferenciadas. Boa parte do sucesso da Dragão Brasil é o fato da gente ter um bom nível de conhecimento e entrosamento com o nosso público. Nós falávamos diretamente com o nosso público, e sabíamos o que ele queria, o que jogava, como jogava, como se reunia e etc.

Rogerio Saladino

“Muita gente reclamava que não tinha tempo para se reunir com os amigos, e a internet ajuda nisso.

CRPG: Considerando sua trajetória profissional, você acha que é possível viver de cultura?

RS: No Brasil sempre foi muito difícil se viver de cultura, porque o próprio conceito de “se viver de cultura” é bem complicado e muda muito rápido. Quando se fala disso, muita gente cita casos de grandes sucessos, como Maurício de Souza, Paulo Coelho, músicos, atores e etc. Mas a questão é que muita gente nem sabe direito o que é Cultura.

Por outro lado, temos pessoas que acham que ganhar dinheiro com cultura é algo errado, usando termos como “vendido” ou “capitalista”. Tem gente que acha um absurdo um desenhista cobrar por uma ilustração, que acha que um roteirista “só escreve”, que não produz nada “de verdade”.

Quando a gente tem uma dificuldade de entender cultura e como ela também é um produto, fica realmente difícil falar qualquer coisa do mercado cultural. Possível é, já que temos muita gente batalhando pra viver do seu trabalho, mas, como a maioria dos meios no nosso país, não é fácil.

CRPG: Quais são os seus projetos atuais?

RS: Por enquanto, estou abraçando vários projetos na Jambô Editora, relacionados com quadrinhos, literatura e RPG. A Jambô vem fazendo um baita trabalho legal, com mais de 20 lançamentos por ano (relacionados a RPG e fantasia e literatura), o que é um número pra lá de respeitável. Estou pra lá de feliz e honrado de fazer parte dessa equipe com uma história de sucesso única na história do RPG nacional.

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CRPG: Qual é o futuro que você vê para o RPG na era digital?

RS: Ao contrário do que alguns urubus do meio fazem questão de ficar repetindo, a era digital está sendo de importância vital pro RPG. As novas ferramentas da era digital ajudaram a espalhar o hobby para novas gerações e deram suporte para jogadores das antigas a continuar jogando. Muita gente reclamava que não tinha tempo para se reunir com os amigos, e a internet ajuda nisso.

Livros difíceis de se conseguir agora estão mais acessíveis, pessoas que se consideravam os únicos jogadores de determinados sistemas ou cenários, agora conseguem encontrar outros fãs, próximos até, ou conversar até mesmo com o próprio autor. Jogos, sistemas e cenários que dificilmente seriam publicados, agora podem ver a luz do dia graças a financiamentos coletivos.

O RPG está numa fase áurea graças a era digital, crescendo e atingindo muito mais gente do que se imaginaria. As streams de RPG hoje são sucessos nos canais de e-sports, e são uma excelente ferramenta de divulgação e de introdução ao hobby. Temos casos de atores participando de jogos em stream para divulgar seu filme mais recente, o que é um enorme reconhecimento para o hobby.

Revista Dragão Brasil, visite https://apoia.se/dragaobrasil
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CRPG: Por favor, deixe uma mensagem para o Museu do RPG!

RS: Continuem jogando, divulgando e tornando o nosso hobby maior e melhor. O RPG é uma excelente ferramenta de aprendizado, de sociabilização, de crescimento pessoal, de incentivo à leitura e mais um monte de coisa, mas acima de tudo, tem que ser um lugar, um momento onde a gente faz o possível pra dar algo melhor pra sociedade, pro mundo que vivemos.

Quando jogamos, mestramos, escrevemos, criamos e participamos do hobby, damos o nosso melhor pra ajudar as coisas o nosso redor a ficarem melhores e pra combater o que achamos que está errado. Jogando RPG podemos ajudar a ensinar, a aceitar, a entender, mostrar tolerância e compreensão, a combater ódio, preconceitos e práticas arcaicas e ruins. Porque pra mim, essas coisas ruins não fazem parte do RPG.


Esta entrevista foi originalmente publicada em 2017 na revista digital Cultura RPG nº 1. Clique aqui para acessar o material original em nosso acervo digital.

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