A primeira vez que tive a ideia de usar música em jogos de RPG foi quando ouvi “Skellig”, de Loreena McKennitt. A letra fala sobre uma mulher que, em seu leito de morte, conversa com o filho a respeito de suas jornadas até então secretas, e dá a ele seus livros com as anotações.

Quando li a letra, pensei que seria um enredo interessantíssimo para um jogo de RPG e essa cena seria um ponto
chave da história. Um tempo depois, tive a chance de fazer isso. Alguns amigos, praticamente todos novatos em RPG, decidiram formar um novo grupo e me chamaram para ser o DM.

Fui ajudando os jogadores a criarem seus personagens com suas respectivas histórias pregressas, mas havia um que estava tendo dificuldades. Pra acelerar o processo, sugeri a ele que o personagem tivesse amnésia e não se lembrasse de seu passado mais antigo, apenas o recente. O jogador acatou e com isso abriu uma brecha para que eu pudesse realizar a cena acima: ele seria o filho da mulher da música.

Algumas sessões depois, o grupo já estava todo viajando junto pelo fictício continente da Nimaídia, que criei especialmente para este jogo. Em uma estrada, numa casinha, eles encontram uma mulher e, nesse momento, eu entreguei a todos um papel com a letra da música e apertei o botão pra reproduzi-la.

Skellig
by Loreena McKennitt


O light the candle, John
The daylight has almost gone
The birds have sung their last
The bells call all to mass


Sit here by my side
For the night is very long
There’s something I must tell
Before I pass along


I joined the brotherhood
My books were all to me
I scribed the words of God
And much of history


Many a year was I
Perched out upon the sea
The waves would wash my tears,
The wind, my memory


I’d hear the ocean breathe
Exhale upon the shore
I knew the tempest’s blood
Its wrath I would endure


And so the years went by
Within my rocky cell
With only a mouse or bird
My friend; I loved them well


And so it came to pass
I’d come here to Romani
And many a year it took
Till I arrived here with thee


On dusty roads I walked
And over mountains high
Through rivers running deep
Beneath the endless sky


Beneath these jasmine flowers
Amidst these cypress trees
I give you now my books
And all their mysteries


Now take the hourglass
And turn it on its head
For when the sands are still
‘Tis then you’ll find me dead


O light the candle, John
The daylight is almost gone
The birds have sung their last
The bells call all to mass

De repente todos silenciaram, apenas prestando atenção no que a mulher “contava”.

A música encheu a sala onde estávamos jogando, era a única coisa presente.

Após o último verso da letra, ainda com a parte instrumental tocando, retomei a narração da cena. Disse que a mulher tossiu bastante e estendeu a mão para seu filho. Disse algumas palavras a ele. Fiz coincidir seu último suspiro com o último acorde da música.

Ninguém falou nada durante alguns segundos, tentando absorver a cena. Eu, que estava narrando e já sabia o que ia acontecer, quase não contive minhas lágrimas – tanto pela emoção da cena em si quanto pelo fato de ter conseguido realizar aquilo de uma forma até melhor que eu havia planejado.

Esse é o impacto que uma música bem colocada numa mesa de RPG causa. Depois disso, sempre que sou o DM de algum grupo, tento colocar alguma música no jogo. Seja para mover o enredo adiante, como descrito acima; seja para carregar mais na emoção ou apenas para dar um pano de fundo às cenas.

Nimaídia

“Eu falava enquanto a música instrumental tocava e os jogadores ficaram em silêncio, alguns até cabisbaixos. Um clima perfeito.”

Em outra ocasião, mestrei um jogo para outro grupo e, na primeira sessão, tive o velho problema que todo DM tem: juntar os personagens em torno de um objetivo comum.

Não por coincidência, quis ambientá-los no mesmo continente que havia criado para o primeiro grupo, a Nimaídia. Planejei um grande evento numa das principais cidades, Romani (esse nome aparece na música de Loreena McKennitt), que era o casamento do maior comerciante do reino.

Ou seja, todos se dirigiram para lá, e bastou um rebuliço para que os jogadores fossem os “escolhidos” como culpados. A sentença foi expurgá-los da cidade e, no momento da expulsão, usei “Deirdre of the Sorrows”, de Mychael Danna, para dar mais peso à cena.

Eu falava enquanto a música instrumental tocava e os jogadores ficaram em silêncio, alguns até cabisbaixos. Um clima perfeito. Mais tarde, este grupo tinha como missão investigar fatos estranhos num lago que ficava no centro da Nimaídia. Lá, encontraram uma torre “afundada” no lago, com apenas o último andar pra fora da água. Descendo a torre, a música usada foi “Didjeridoos and Don’ts”, de Phill Niblock.

Era apenas isso: um didjeridoo, aquele instrumento aborígene, tocando infinitamente. Uma nota só, praticamente, com
poucas variações. Era tão contínuo e pesado que se integrou ao jogo, dando um clima de tensão a cada andar que o grupo descia.

Após enfrentar muitos desafios na torre, ao chegar no térreo, o grupo encontra um reino subterrâneo. Nesse momento, tocou “Saint Patrick in the Spirit”, de John Doan. A ideia era passar um ar de grandiosidade, afinal, os personagens haviam acabado de chegar ao reino dos anões, que até então, naquela história, era desconhecido.

Estes são alguns exemplos. Outros: usei “Harem Scarem”, do Focus, em uma batalha; “The Blood of Cu Chulainn”, de Mychael e Jeff Danna, como tema do navio voador que dei aos jogadores em um estágio avançado do jogo; “Down by the Salley Gardens”, de Joanie Madden, como tema do vilarejo mais longínquo do continente, no extremo norte; dentre outros.



Como se nota, uso muita música celta, pois acredito terem um clima que casa bem com cenários medievais de fantasia. Não me limito ao gênero, porém.

Concluindo, música na mesa de RPG não é necessária, pois pode-se perfeitamente jogar um bom jogo sem ter trilha sonora alguma. Eu mesmo já joguei vários. Porém, uma música bem colocada pode ser a diferença entre apenas mais uma sessão e uma sessão inesquecível.

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Texto de autoria de Christiano Candian, publicado originalmente em 2017 na revista Cultura RPG nº 1. Acesse o material em nosso acervo, clicando aqui.

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